A velha guarda do Jacintinho



Por telefone, conversei com o senhor José Geraldo, de 74 anos, morador do bairro há 41 anos. Ele relatou um pouco da sua história, contando que morava na Boca da Mata, cidadezinha do interior de Alagoas, mas foi para Maceió trabalhar como motorista. Chegando no Jacintinho era tudo barro, tinha muito mato, não tinha luz, nem água encanada. Haviam poucas casas, as ruas não eram asfaltadas, não tinham viadutos e quando chegou não existia mais roça. Ainda não existia a feirinha, nem o comércio, mas havia uma linha de ônibus, a Santa Maria. Ouvia pessoas falando que o Jacintinho era um sítio que pertencia ao seu Jacinto, diziam que ele era um vendedor e que fazia remédios, era uma espécie de curandeiro e vendia garrafada para o povo.

O Jacintinho também abriga Dona Amara Benedita, conhecida por Dona Mara, senhora de 72 anos de idade, que mora no bairro há quase 50 anos. Conta a sua filha, Maria de Fátima, nascida em São Miguel dos Milagres, cidade de Alagoas, que antes de sua mãe chegar ao Jacintinho, ela morava na cidade Passe de Camaragibe, interior alagoano e, nesta época, trabalhava na casa de farinha, fazia cordas, vassouras de palha, chapéu de palha e vendia na feira. Com o passar do tempo,  casou-se  e teve 5 filhos com um lavrador que plantava macaxeira, comprava e vendia cavalos. Precisou ir para Maceió, em função de uma doença de uma das filhas, pois lá não tinham recursos. Chegando em Maceió, morou no bairro de Cruz das Almas, somente depois foi morar no Jacintinho, em uma casinha de barro, coberta de palhas, sua mãe tirava lenha para queimar, extraída na redondeza, pois tinham muitas árvores, carregava latas de água na cabeça, lavava roupa de ganho para ajudar no sustento da casa. Maria de Fátima conta ainda, que seu pai já foi vigilante, calceteiro (calçava ruas), nesta época passava necessidade, pois nem sempre tinha serviço, tinham ajuda de algumas pessoas, foi também ajudante de obras e por último pedreiro, seus filhos cresceram, o bairro se desenvolveu, com isso, começaram a trabalhar e ajudar seus pais, só então passaram a ter uma vida menos precária, ainda com o hábito do interior, criavam galinhas, porcos para vender aos vizinhos, onde tinham bastante encomenda. Hoje já não moram mais naquela casinha de barro, a rua é asfaltada e bem movimentada. Maria de Fátima tem dois filhos, considera que o Jacintinho é um dos melhores bairros de se viver, tem um comércio grande e variado, perde apenas para o centro de Maceió e o bairro do Benedito Bentes. Atualmente, Dona Mara é aposentada, seu marido morreu, dois de seus filhos morreram também e, apesar das perdas, a família vive uma vida mais sossegada.




Comentários

  1. Muito bom ver a história viva resguardada dentro deste relato. A sua construção e riquesas de detalhes ao apresentar o que foi relatado deu ainda mais primazia a História.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Maceió e o bairro do Jacintinho

Antiga capital de Alagoas